Normalização do MEM: Quem ganha e quem perde?

A Secretaria de Energia avança com um esquema mais competitivo: estabilidade relativa para residências e um chamado à ação para os grandes usuários.

CPN Angeles Terán

8/23/2025

person grinding pipe steel wool photography
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A Secretaria de Energia deu início a uma mudança significativa — e há muito anunciada — no Mercado Elétrico Atacadista (MEM). A ideia principal é simples: organizar preços, tornar mais transparente sua formação e deslocar o eixo da "grande centralização" para um esquema onde cada ator assume mais responsabilidades.

Residências com rede de segurança, indústria a céu aberto

A diretriz oficial é clara: a demanda residencial continuará tendo prioridade na energia mais barata — hidráulica, nuclear e contratos vigentes. Para a maioria das residências, isso funciona como um amortecedor contra aumentos bruscos.

Do outro lado, os grandes usuários (GUDI) ficarão cada vez mais expostos ao preço "de mercado" do sistema: o Spot. Nesse ambiente, o valor da energia responde a custos marginais e a novas regras que buscam refletir melhor a realidade do despacho. Traduzindo: se você é uma indústria ou comércio de grande porte e não se cobre, sentirá mais a onda de preços.

As projeções da análise econômica oficial são um alerta: aumentos médios de cerca de 15% ao ano para grandes usuários, com picos de até 35% no inverno. O preço médio para esse segmento pode girar em torno de US$ 94/MWh, frente a US$ 75–77/MWh do MEM em geral. E há um marco que não se deve perder de vista: a partir de 2028, vários Contratos de Aquisição de Energia (PPA) começam a terminar, o que aumenta a exposição à volatilidade do Spot e reduz a previsibilidade.

O que fazer? Duas defesas: contratos e eficiência

Nada disso pegará desprevenido quem estiver preparado. O próprio esquema oficial aponta a saída:

  • Contratualizar no Mercado a Termo (MAT): Fechar contratos bilaterais de energia e potência é a maneira mais direta de "delimitar" o custo e evitar surpresas em meses críticos.

  • Eficiência Energética: O que você não consome, você não paga. E cada kWh evitado te expõe menos ao preço marginal de curto prazo, que terá um peso crescente.

Pense nisso como um seguro: garantir parte da sua demanda e reduzir consumos ineficientes é a estratégia de cobertura mais barata que existe.

Outra mudança fundamental: a gestão dos combustíveis deixa de estar "toda no mesmo lugar" e passa a ser descentralizada. O caminho é gradual, mas o destino já está escrito no cronograma: em 2028, os geradores devem gerenciar integralmente seu combustível. A mensagem implícita é que o preço final da energia refletirá cada vez mais o custo real de produzi-la (gás, combustíveis alternativos, transporte).

Esta não é uma ameaça vaga para "algum dia". Ela começa com os primeiros ajustes em 2025 e se aprofunda até 2028. É quando o jogo muda para todos: geradores responsáveis pelo combustível, menos centralização e um mercado de preços muito mais "aberto" para a indústria. Se você é um grande usuário, 2025–2028 é sua janela para organizar contratos e acelerar a eficiência. Depois, a subida se torna mais íngreme.

Quem ganha e quem perde?

  • Residências: Mantêm um guarda-chuva de estabilidade relativa graças à prioridade da energia mais barata.

  • Grandes Usuários: Pagam o custo da transição se não agirem. Quem se cobre a tempo, ganha; quem não o faz, fica à mercê do Spot.

Mensagem final, sem rodeios: quem se mover agora gastará menos amanhã. Quem não o fizer, pagará a conta completa da nova normalidade.

O processo está em andamento, mas ainda faltam definições. As regras continuam em construção e dependerão das resoluções emitidas pela Secretaria de Energia. Até que esse marco seja fechado, a recomendação é acompanhar o Diário Oficial e as comunicações da CAMMESA como se fossem a previsão do tempo: cada atualização pode mudar o prognóstico, e é prudente estar pronto para ajustar o rumo.